Devaneios com URL #4

4: finais e começos

Eis chegada a etapa do ano em que se pára para medir, tecer listas, que são, ao seu modo, histórias de crescimento ou decorrada tão artificiais quanto a própria divisão de calendário que as subjaz (e outras se lhe seguirão). Mas é humano celebrar a rotação celeste do planeta – a criança quer-se tornar adulta. Lembrar efemérides importantes, compilar resultados, e destacar obras singulares. E também dar voz ao que passou ao lado. Às obras de antanho.

Mas este género olha para o futuro, e nesse olhar celebra-se por antecipação, por vezes com ânsia de que os dias corram. Cada vida esconde um romance – e cada história esconde outra. Convém conhecer as regras, talvez para as destruir… mas mais tarde, quando sairmos deste entroncamento temporal.

Boas Festas com livros.

Luis Filipe Silva

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Devaneios com URL #3

3: brasis e outros aléns

É dia de celebração para a língua portuguesa, ou, para ser mais específico, foi no passado dia 11 de Dezembro que se celebrou a ficção científica brasileira, data escolhida como homenagem a um dos seus grandes pioneiros, que também foi distinguido com site próprio. É um sinal de vitalidade e de apreço para uma literatura com história própria, estudos académicos reconhecidos e produção constante, conforme evidenciado pela mais recente edição do prémio Argos. Quem procurar online, rapidamente encontrará revistas, iniciativas e sites de referência que orientarão num percurso paralelo mas, infelizmente, pouco conhecido do lado lusitano. Nesse mesmo fim de semana, no Porto houve, ainda, a possibilidade de descobrir a escassa produção nacional e contactar com autores. Sincronicidade? Ou globalização?

Mas o género não sobrevive com eventos – há que escrever, há que ler, conhecer os clássicos, avaliar as adaptações e descobrir espaços menos eurocêntricos. Descobrir a escrita exclusivamente no feminino – ou não fosse «literatura» uma palavra deste género. Assistir, também, a séries de televisão e ponderar criticamente sobre os temas apresentados: a ficção científica, mais do que uma distracção, é um meio de pensar a vida (observações interessantes neste último texto, dêem-lhes bom uso). E fazê-lo além da língua portuguesa, pois o mundo não termina nesta fronteira: descobrir o moderno ou o insólito, mesmo em embrulhos pequenos, noutros idiomas, é também uma aventura.

Luis Filipe Silva

João Barreiros e Luis Filipe Silva nos Devoradores de Livros

João Barreiros (à esquerda) e Luis Filipe Silva (à direita) irão estar presentes na próxima tertúlia dos Devoradores de Livros para apresentar a reedição (aumentada e melhorada) do épico de ficção científica Terrarium.

A próxima sessão será no dia 26 de Janeiro de 2017 na livraria Leituria, em Lisboa. A seguir à tertúlia seguir-se-á o já tradicional jantar onde se pode prolongar a conversa.

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O Terrarium vai ser editado pela Saída de Emergência na Colecção Bang!

Tragam o vosso exemplar, tragam outros exemplares dos autores (certamente eles também irão gostar de falar deles) e tragam os vossos melhores amigos.

Nós prometemos só devorar os livros!

http://www.facebook.com/osdevoradores

E o evento: https://www.facebook.com/events/420240435032474/

Devaneios com URL 2

2: fronteiras e riscos

Preocupações com fronteiras temporais, em idade de corpo ou idade de calendário, marcam esta secção, levando-nos a questionar fronteiras de gostos, pois a primeira lista nada contém de reconhecidamente FC e a segunda é o reflexo invertido deste espelho. Concordaremos com o que foi escolhido para nós, teremos algo inédito a dizer? Convém ficarmos alerta contra discursos hegemónicos (pausa para aplaudir: «o prazer do texto é uma das mais importantes funções da literatura, ao lado da catarse e da busca de conhecimento do mundo»), mas por outro lado, é curta, esta passagem pela vida, e facilmente nos perderemos na selva editorial. Diversidade é o que propomos, despir a armadura, correr riscos de leitura. Também teremos as nossas preferências, devidamente assinaladas quando se intrometerem. Como, por exemplo, esta, que junta um autor a outro prefacista, ambos de qualidade.

Talvez nos ajudem as fronteiras espaciais, novamente (v. entrada anterior da presente coluna): se as traições de língua trazem outro tipo de interrogações (algumas incompreensíveis, como a opção de distribuir pelo canal português a versão dobrada, e não a original, desta série), também é verdade que nos fazem descobrir mundos, distantes em território, mas afinal são tão próximos em alma

Luis Filipe Silva

Devaneios com URL

Estreamos hoje o que nós esperamos ser o primeiro “Devaneiros com URL” de Luis Filipe Silva, uma revista do que se anda a passar no mundo da FC&F.

1: vozes e ecos

Será o autor um porta-voz da sua geração? Do seu país, da sua língua, das crenças e acontecimentos? Fará dele um jornalista emocional, preocupado em relatar a viagem íntima (subjectiva, portanto, filtrada, parcial e parcimoniosa) – mas, se fizer, confiaremos nele? Irá conduzir-nos a um lugar seguro? A uma verdade reconhecida por muitos? Recentemente, discutiram-se limites, à guisa de legitimidades: «A good novelist is a good observer – everything else is just style. A writer must be alive to what goes said and unsaid in the world, making themself [sic] small until only the reader is reflected in the work. A well-crafted novel is a mirror, and as a reader I don’t mind where the glass was made or how it got its silver. I require only that its reflection is fair.»

Se isto for verdade, o que dizer da ficção científica? Sabem, aquele ramo da literatura que fala do que não existe(iu). Se quem relata nunca viajou nem assentou pés em tal terra(tempo), como resolver a questão da legitimidade? Serei dono deste sonho, da visão que me apareceu? (Como bem sabemos, sonhos são coisas que, quando se lhes abre a portinhola, jamais regressam ao ninho.) Claro que convém aparecer, ser-se visto, ou mais importante, ser-se lembrado. A voz do autor ecoa no tempo.

Estranhamente, por vezes é mais difícil ecoar no espaço: falamos de Weltliteratur e prontamente desculpamos a sua inexistência com as questões comezinhas do dinheiro e do interesse alheio, aparentemente interligadas. Mas interesse existe, ou parece existir, em determinadas reuniões literárias internacionais, pelo menos naquela bolha anacrónica dos poucos dias de um acontecimento intenso. Felizmente que a nível interno de cada nação, o interesse mantém-se, quer em saudar o que se fez quer em promover nascimentos. E depois há aquelas situações de intermeio, em que já nasceu mas ainda não se mostrou ao mundo. Mas estas abordaremos mais tarde…