Refrega das Resenhas – Antologia Ficção Especulativa Queer

Há muitos blogues e canais de resenhas de livros pela internet fora, cada um dando a sua opinião do que andam a ler. Nós na Imaginauta seguimos estes espaços de literatura com prazer, com curiosidade e com uma intensa vontade de ver mais e melhores conteúdos originais.

E foi por causa disso que decidimos criar a:

Refrega das Resenhas

Um encontro entre resenhistas de livros à volta de um título previamente escolhido. Quem gostou? Quem não gostou? Que personagem é o favorito de um, e de outra? Será que as opiniões vão convergir, ou será que vai parecer que andaram a ler livros diferentes?

A resposta a estas perguntas e muito mais no dia 12 de Junho de 2020 às 21h, no live stream da Refrega das Resenhas. Podes seguir no Facebook e Youtube.

O título em disputa será a Antologia de Ficção Especulativa Queer.

E quem vai participar?

Cristina Luiz, do blogue  LinkedBooks  cujas as leituras vão saltando por entre livros mencionados noutros livros.

O Cabo Cinético é um canal de YouTube fundado em 2017, que cria conteúdos sobre ficção, cultura e entretenimento. O campeão que trazem para a Refrega das Resenhas é Gazervici aka Dinis Ramos, que cura a rúbrica Ipsis Verbis, focado em literatura. Em 2020 fundou o seu site, onde publica também conteúdos sobre jogos, cultura digital, e conteúdo investigativo sobre a região algarvia, pela mão dos seus colaboradores ocasionais. Conta com mais de 200 vídeos, cobre eventos geek como o Festival Contacto, o Iberanime e a Comic Con Lx, e pretende abrir o diálogo sobre o storytelling em todas as suas vertentes.

Cristina Alves, autora do Rascunhos, um blogue de literatura (banda desenhada e prosa) e jogos de tabuleiro, e mentora do The Portuguese Portal of Science Fiction, um site com artigos em inglês que pretende dar a conhecer a ficção especulativa feita em Portugal.

Vanessa “Faith” Figueiredo: “A minha página mais importante é o meu Instagram, estando agora mais dedicado ao conteúdo literário, no final do ano de 2019 comecei a magicar e a contactar autores para um projecto que até ao dia de hoje cresceu muito mais do que estava a espera e do qual me orgulho imenso. Este projecto tem como nome(s) /tag(s) #emptparapt /#apoioaoautoreàescritaemportuguês, e visa promover autores portugueses (e/ou de língua portuguesa) e novas obras em português.
 Se quiserem saber mais sobre mim e o que faço, podem dar um pulo às seguintes plataformas: Instagram e
Youtube.”

Entrevista a Pedro Galvão

Pedro Galvão é escritor, tradutor, professor universitário de Filosofia e, agora, romancista.

Dia 12 de Maio irá lançar o romance A Última Vida de Sir David pela Imaginauta e nós não podíamos estar mais excitados.

Conhece mais do autor e da obra nesta entrevista que lhe fizémos.

Como surgiu A Última Vida de Sir David?

Quando ainda era um jovem pai, já lá vão uns anos, perturbava-me a possibilidade de morrer antes de o meu filho poder ficar a recordar-se de mim. Esse pensamento ficou. Mais tarde, uma vez um dos meus filhos disse-me que gostava de ser um dragão. Entendi que, de certa maneira, podia concretizar esse desejo. O pensamento e o desejo foram as grandes peças iniciais do romance — que, se tem um tema, será o da memória e da paternidade. Aos poucos, num processo que não saberia reconstituir, foram aparecendo mais peças, ideias que por uma razão ou por outra me atraíram. Algumas acabaram por cair, outras mudaram de forma e algumas, orgulhosamente, mantiveram-se intocadas. Deu tudo muito trabalho. Mais trabalho, aliás, do que a minha tese de doutoramento, que deu muito trabalho. Por causa das exigências incessantes da vida académica, fui forçado a grandes interrupções. Para piorar as coisas, sou lentíssimo a escrever. Mas o que quis sempre fazer? Em grande medida, um romance de fantasia que, embora fiel ao mais do que estafado imaginário tolkienesco, fugisse à vulgaridade. Impregnei o romance de magia filosófica, digamos assim, e subverti algumas das convenções mais acarinhadas dentro do género. Muito pretensioso, isto? Talvez, mas não vale a pena escrever, se não se ambiciona acrescentar alguma coisa de minimamente significativo ao que já existe.

Para quem é A Última Vida de Sir David?

Para quem goste de pelo menos duas das seguintes três coisas: gatos, filosofia e fantasia. Quem goste de só duas delas, talvez a fique a gostar da terceira. Quanto a idades, posso dizer que de início tive em mente um público juvenil. Mas, enquanto o escrevi o livro, na verdade nunca pensei nisso. Por exemplo, nunca me inibi de usar certas palavras ou expressões por serem «difíceis» para essa faixa etária. Desta despreocupação resultou um romance bem mais exigente do que é normal na ficção juvenil de fantasia. Paciência. Ou melhor, ainda bem que isso aconteceu, porque assim o livro poderá contar com leitores adultos, desde que suficientemente maduros.

Qualquer bom escritor é, antes de mais, um bom leitor. Qual o livro na tua mesinha de cabeceira (ficção e não ficção)? Que livros te marcaram?

Na minha mesa de cabeceira há duas pilhas monstruosas de livros, que de vez em quando desabam. Deixo um livro a meio para começar outro, depois retomo-o, talvez interrompa a leitura mais uma vez porque entretanto apetece-me mais ler ainda outro. Enfim, sou um leitor bastante caótico. Mas há alguma ordem, apesar de tudo. Geralmente, ando a ler um livro de história, um livro de filosofia e um livro de ficção. Agora estou a ler The Accursed Tower: The Fall of Acre and the End of the Crusades, o último livro de Roger Crowley, que é um mestre da história narrativa. De filosofia, estou a ler Locke on Knowledge and Reality, de Georges Dicker, que é o meu especialista preferido em filosofia moderna. E estou a ler um livro de ficção científica: Odd John, de Olaf Stapledon, que por acaso era filósofo. Muito interessante, mas não é o melhor dele. Esse título pertence a Star Maker, de 1937, que é uma cosmologia inventada. E com isto estou já a responder à segunda pergunta. Entre outros livros que me marcaram, destacaria alguns Kurt Vonnegut (como The Sirens of Titan), alguns de Philip K. Dick (como Ubik) e alguns de Stanislaw Lem (como The Cyberiad).

Se pudesses jantar com uma personagem do teu livro, com quem seria?

Com o próprio Sir David. Ele é inspirado em parte num dos meus gatos, que já morreu e se chamava David Hume, e em parte no próprio Hume. Jantar com ele seria como reencontrar o meu gato e, ao mesmo tempo, conhecer um dos filósofos mais admiráveis, tanto enquanto filósofo como simplesmente enquanto pessoa.

Muitas das personagens de A Última Vida de Sir David têm personalidades vincadas e características excêntricas. Inspiraste-te em alguém para as criar?

Em alguns casos, sim, o que inclui os gatos. Há um pouco de tudo: personagens que se inspiram numa pessoa específica, outras que se inspiram em várias, outras ainda que, pelo menos na medida em que tenho consciência disso, não se inspiram em ninguém. Também há lugares e acontecimentos com contrapartes no mundo real. Na verdade, das abstracções da filosofia à vida pessoal, servi-me sem escrúpulos de tudo o que deu jeito para compor uma história capaz de fascinar.

Tiveste de investigar algum tema mais a fundo ou estranho para escrever este livro?

Fiz só uma espécie de preparação, que consistiu em ler ficção juvenil, sobretudo no território da fantasia. De um modo geral, não fiquei encantado com o que descobri. Mas gostei muito de Uma Série de Desgraças, de Lemony Snicket. Tem um humor extraordinário. E adorei Ponte para Terabítia, de Katherine Paterson, que é uma pequena obra-prima. Contudo, não me parece que estas leituras tenham influenciado o curso do romance.

Este é o teu primeiro romance. Tens outros a caminho? Quantos ficaram pelo caminho?

É o primeiro e aconteceu ser um romance. Quando comecei a escrevê-lo, tinha em mente um género menos intimidante. O texto ficaria pelas cem páginas e, portanto, seria apenas uma novela. Só que, na cabeça, a narrativa foi crescendo em complexidade e não pude fugir ao romance. Felizmente, tenho algum juízo e uma saga está fora de questão, até porque não há paciência para sagas de fantasia. Mas não tenho muito juízo. Em vez de estar agora concentrado num projecto literário, dispersei-me por dois. São dois conjuntos de contos, ambos de ficção científica, embora pouco científica, cada um deles com um universo ficcional próprio, distinto, que impõe exigências literárias muito diversas. No horizonte longínquo, há um romance por agora embrionário, também de ficção científica. Centra-se em jogadores que se dedicam a um jogo virtual situado num universo de fantasia. Foi a forma que encontrei de dar algum sentido às horas e horas passadas a jogar World of Warcraft, onde o meu orc caçador espera há muito pelo meu regresso.

Uma das coisas de que mais gostámos na Última Vida de Sir David foi da natureza dupla do romance, tanto sendo uma história de fantasia leve, divertida de ler, onde a nossa imaginação é deixada à rédea solta, como também toca temas importantes e, por vezes, complexos. Foi algo que desenhaste desde o início, ou foi algo que surgiu naturalmente?

Foi tão espontâneo que ainda não tinha visto as coisas assim. Embora tenha horror à repetição, é de esperar que isso se mantenha em toda a ficção que ainda vá escrever. Como escolhi dedicar-me à filosofia, sou capaz de ter uma atracção excessiva por temas dessa natureza, mas, porque entendo que toda a boa literatura proporciona prazer estético, gosto de os abordar num registo lúdico. Em suma, brinco com coisas sérias.

Agora que o livro está prestes a ir parar a mãos de leitores desconhecidos, preocupa-te como vai ser a recepção?

Não… Preocupa-me o que estou a fazer agora. Estarei à altura do que tenho em vista? Por causa do horror que referi, estou quase a começar do zero. Quanto ao meu Sir David, vê-lo publicado, ainda para mais após um processo editorial muito cuidado, é uma fonte suficiente de alento para o que se segue. Devo dizer que, vendo-o concluído, fiquei com a sensação de ter feito exactamente aquilo que queria ter feito. Se é bom, se é mau, outros dirão, mas é um livro que gostaria imenso de ter lido, se não o tivesse escrito. Penso, aliás, que um escritor honesto não deve querer agradar aos leitores. (Nem desagradar, claro…) Deve apenas escrever livros que ele próprio gostaria de encontrar como leitor.

Se pudesses escolher entre o livro ser adaptado para filme/série ou ser traduzido para as 5 línguas mais faladas do mundo, que preferirias?

O livro tem demasiada história para um filme, mas seria abusivo convertê-lo numa série. Escolhia uma mini-série. Com esse género de exposição, o romance seria rapidamente traduzido para as dez línguas mais faladas (e isto sem contar com o português).

Próximo lançamento – A Última Vida de Sir David

Na Imaginauta trabalhamos todos os dias para vos dar o que de melhor se faz em ficção especulativa e, lá porque o Festival Contacto teve de ser adiado, não quer dizer que estejamos parados.

As novidades de hoje é que temos um romance já em fase de acabamentos. Apresentamo-vos:

A Última Vida de Sir David

Ilustração da capa de Nuno Dias

Desde que o rei de Alamkar desapareceu, cabe sobretudo a Sir David educar o príncipe Venrik. Nada fora do alcance de alguém tão letrado e experiente, com um passado rico em aventuras, de entre elas uma incursão ao fim do mundo conhecido.

Mas ei-lo agora, pela força do imprevisto, a atravessar uma vez mais a assombrosa Onyria: um mundo de perigos mortais, onde não faltam também ilusões, equívocos, magia como nunca se viu.

Não era nada assim que Sir David imaginara a sua sétima e última vida.

Esta é uma história com alma de clássico de fantasia, mas de personalidade rebelde e pendor filosófico, capaz de surpreender mesmo o leitor mais familiarizado com o género.

O autor é um debutante neste mundo da ficção especulativa, chegado até nós na editora Imaginauta pela via da submissão expontânea. O que nos faz perguntar: “Que mais histórias andarão por aí para nós publicarmos?”

Sem mais preâmbulos, apresentamos Pedro Galvão:

Pedro Galvão é filósofo e professor de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde ensina Ética e Filosofia Moderna. Escolheu seguir filosofia para nutrir a imaginação com materiais que um dia resultassem em ficção especulativa. Foi uma boa escolha. A sua paixão pela tradução de prosa filosófica dos séculos XVIII e XIX valeu-lhe o Prémio de Tradução Científica e Técnica em Língua Portuguesa.

Fotografia de Marcos Borga / Visão

Lançamento “Contos do Rei de Amarelo”

Pobres daqueles que caem nas mãos do Deus vivo! Não sobre nós, oh Rei, não sobre nós!

A apresentação do livro “Contos do Rei de Amarelo” vai decorrer durante o motelx (Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa) no dia 12 de Setembro, na sala 2 do Cinema São Jorge.

Para além do livro, preparámos algumas surpresas para os fãs de terror. Das 19h00 às 21h00 haverá uma instalação interactiva de texto onde poderás viver na pele de alguém que caiu nas mãos do Rei de Amarelo. O jogo foi desenvolvido pelo Isaque Sanches, João Antunes e Gonçalo Guiomar e inspira-se tanto no Contos do Rei de Amarelo como conto feminista de terror “O Papel de Parede Amarelo” de Charlotte Perkins Gilman.

Minutos antes do livro ser apresentado vamos tocar uma audiopeça de terror da autoria do actor André Sobral, com passagens dos Contos do Rei de Amarelo.

No lançamento, contaremos com a presença do actor Miguel Borges e ilustrador João Pinto, responsável pelas ilustrações interiores do livro.

O livro estará disponível durante o festival a preço de lançamento (10% de desconto) e após este será enviado para as livrarias generalistas.

Museu da Lua

João Barreiros (o autor), Carlos Silva e Cristina Alves a ler o conto Efemérides, acerca de um futuro alternativo em que Kennedy não morreu e a Lua foi colonizada com tecnologia dos anos 60, para horror da personagem principal, Russel.

Esta foi uma iniciativa Imaginauta e The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction, em conjunto com a Câmara Municipal de Oeiras e British Council para promover o Museu da Lua, uma obra de arte que consiste numa lua insuflável suspensa, enquadrada num jogo de luzes e som.

O conto Efemérides foi publicado pela primeira vez em 1999 pelo jornal Público, ressurgindo uma segunda vez na antologia Se Acordar Antes de Morrer, versão esta que foi a usada na leitura.

Da direita para a esquerda: Carlos Silva, Cristina Alves e João Barreiros

E serviu ainda este evento para encontrar alguns fãs da Imaginauta e do João Barreiros, como o Leonardo Duprates, que trouxe consigo o exemplar do Crazy Equóides que encontrou na Livraria Lello do Porto e que assim o personalizou com um autógrafo do autor.

Entrevista a João Barreiros – Crazy Equóides

Estivemos à conversa com o autor João Barreiros acerca do seu mais recente romance “Crazy Equóides“. Venham descobrir alguns dos segredos deste livro.

Crazy Equóides

O que tem o Crazy Equóides que mais nenhum livro em Portugal tem?

Nada que se assemelhe a Crazy Equóides parece ter existido na literatura lusa. Para já, trata-se de uma Space Opera retrofuturista. Não se refere a umbigos nem estados de alma. Não tem palavras ou frases bonitas. É anti romântica em toda a sua essência. É visceralmente violenta. Não trata do amor que redime, mas sim do amor que mata.
Mais do que tudo não existe neste derradeiro século, uma única obra genuinamente de FC nos sinistros meandros da literatura portuguesa.
Talvez seja por isso que ela é única na literatura lusa. Claro que a Academia e as almas sensíveis não vão querer pegar-lhe nem com a pontas dos dedos.
Talvez seja por isso que os Crazy Equóides vos possa interessar…

Quais foram as tuas principais inspirações para escrever este romance?

Inspiraram-me todas as aventuras pulp dos anos cinquenta, principalmente as Space Operas, onde as naves ainda podiam efectuar aterragens verticais.
E, claro, principalmente nos contos do Philip Jose Farmer.

Mack the Knife e Temps de La Cerises, as duas naves/inteligências artificiais têm nomes de canções, porquê?

Porque as canções revelam os fins a que as Companhias projectaram as naves
O nome Mack the Knife, por exemplo, foi retirado da Ópera dos três vinténs do Brecht. Mack é um chulo, e aproveita-se do espólio dos outros, apenas interessado nas opções mais negras da humanidade. A Companhia que Mack representa tem uma atitude quase necrófaga em relação aos restos que pretende alcançar.
Le Temps des cerises parece ser uma canção doce, mas surgiu na época mais negra da história de França, ou seja, durante o Terror. Também é a canção de fundo do Anime Porco Rosso. Se bem se lembram, o filme trata de um porquinho aviador que parece um homem ou de um homem que, por uma estranha maldição, se transformou num porco.
Love Kills, que também poderia ser o nome de uma nave, foi cantada na versão colorida e sonora do filme Metropolis, produzida por Moroder. Enquanto a canção passa, podemos ver o robô Maria a provocar crises de agressividade aguda entre os seus desatinados pretendentes. O filme completo encontra-se disponível no Youtube.
https://www.youtube.com/watch?v=TS5u_8Cs3AA

Se houvesse uma nave com o nome de uma canção portuguesa, qual seria?

Só poderia ser:  BABY SUICIDA, cantada pela Ia com a cara da Adelaide Ferreira.
https://www.youtube.com/watch?v=NsVEwz1-FLo
Neste caso a companhia lusitana teria de tentar resolver situações recusadas pelas outras Companhias, consideradas demasiado perigosas, ou absolutamente desnecessárias.

Depois de Crazy Equóides, o que recomendas ler a seguir?

Dogs of war de Adrian Tchaikovski
Lock in, Skalzi
Sysiphean, Torishima
Apex, Ramez Naan