Entrevista ao livreiro da Tigre de Papel

Ao longo da sua existência, a Imaginauta tem contactado com diversas livrarias e livreiros. Afinal, micro editoras e livrarias independentes podem quase considerar-se primos. Já colaboramos com varias, tendo dinamizado sessões dos Devoradores de Livros, e em algumas podem encontrar os nossos livros. Recentemente, tem-se falado bastante na sobrevivência destes templos do livro e como e que eles se inserem no ecossistema literário do pais.

Recentemente o Ministério da Cultura publicou um mapa das livrarias em Portugal (são 130, no total), mas já houveram pessoas a denunciar que se encontram la estabelecimentos fechados há 10 anos. Será um sintoma do alheamento dos responsáveis pela iniciativa?

Decidimos fazer uma pequena entrevista ao Fernando Ramalho, da Tigre de Papel, o afável responsável do espaço na Rua de Arroios 25, 1150-053 Lisboa.

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1 – Primeiro de tudo, uma pequena apresentação. Quem é, qual é a tua livraria e o que faz dela única?

Desde o início que concebemos a Tigre de Papel como um espaço com uma dupla identidade. Por um lado, entre Julho e final de Setembro, concentrarmo-nos sobretudo na venda de livros escolares. Temos sempre uma campanha de descontos nos manuais, bem como no material escolar, e apostamos na venda de manuais em segunda mão. Por outro lado, ao longo do resto do ano, somos uma livraria que alia a venda de livros à organização de uma programação regular de eventos – lançamentos de livros, conversas, leituras, actividades para crianças, etc.

Entendemos a livraria como um espaço que deve ser capaz de juntar pessoas e proporcionar momentos de debate, reflexão e lazer. Quanto à oferta livreira, juntamos livros novos e em segunda mão. Os novos vêm sobretudo de editoras independentes, muitas vezes de dimensão reduzida, e de edições de autor. No que respeita aos livros usados, a oferta é mais ampla e procura responder à necessidade de não deixar os livros morrer, de os manter em circulação. Por fim, iniciámos no ano passado uma linha de edição de livros. Publicámos até agora três títulos: Lex Icon, de Salette Tavares, uma reedição fac-similada de um clássico da poesia experimental portuguesa, editado originalmente em 1971; A Vida entre Edifícios, do urbanista dinamarquês Jan Gehl; e Gravidez, uma novela gráfica de Júlia Barata.

2 – Qual a tua livraria favorita, dentro ou fora de Portugal (sem ser a própria, claro)?

Para não ferir susceptibilidades, escolho as minhas três preferidas na cidade do Porto: Utopia, Gato Vadio e Poetria.

3 – Podes contar-nos o episódio mais caricato/interessante da tua carreira de livreiro?

É difícil escolher um episódio. Em geral, o contacto directo com os frequentadores da livraria produz momentos muito bons e, sobretudo, em que se aprende bastante. São especialmente recompensadores os casos em que alguém compra um livro que procurava há muito tempo ou aqueles em que um livro se liga profundamente a episódios da vida dos leitores. Há, por exemplo, um cliente que costuma vir comprar livros e depois regressa a dar feedback das leituras. Uma vez contou que, num livro do Camilo José Cela que cá comprou, encontrou uma descrição de um hotel em Madrid que era o mesmo onde ele e a mulher costumavam ficar hospedados quando lá iam, há muitos anos. A descrição era tão detalhada e precisa que ele não só consegui imaginar-se de volta ao hotel, como ficou cheio de vontade de lá regressar – coisa que dificilmente aconteceria devido à sua idade e estado de saúde.

4 – Recentemente foi anunciado um selo de mérito, que proporcionará as livrarias poderem ter acesso a publicidade de borla, estabelecer protocolos com organismos públicos, etc. Se fosses tu a desenhar esta iniciativa, que incluirias?

Tanto quanto sei, não se conhece ainda bem as características da medida nem os critérios para a atribuição do selo. O que foi anunciado é que haveria uma comissão que, anualmente, avaliaria de acordo com um «conjunto de critérios». Ou seja, teria de ter mais informação sobre a medida para poder formular uma opinião mais sólida. Em princípio, agrada-me qualquer medida que promova a visibilidade das livrarias independentes e do seu papel na vida das cidades. Agrada-me também que essa preocupação esteja presente na definição das políticas públicas, seja no plano do Ministério da Cultura seja nas autarquias. Mas prefiro medidas que sejam suficientemente abrangentes de modo a contemplarem todo o sector livreiro independente, que se fixem nos seus problemas e dificuldades, em vez da lógica meritocrática que a própria designação do selo sugere. Se o selo for apenas uma espécie de Estrela Michelin para as livrarias, penso que se avança pouco.

5 – Que outras medidas achas que deveriam existir para apoiar o negócio do livreiro independente?

Os principais problemas das livrarias independentes prendem-se com a gigantesca concentração que, nos últimos anos, se verificou nas diversas componentes do mercado do livro – edição, distribuição e comercialização. A fatia de leão do negócio está concentrada em dois grandes grupos – a Porto Editora e a Leya –, com consequências óbvias não só ao nível da diversidade do sector, mas também determinando um quadro concorrencial profundamente desleal e insustentável. Isso é especialmente gravoso no caso dos livros escolares – que conhecemos bem –, mas estende-se cada vez mais a todo o mercado do livro. O que me parece mais prioritário, então, seriam medidas que combatam a concentração do mercado, desde logo fazendo cumprir a legislação existente de combate ao abuso de posição dominante, impondo condições de igualdade na relação comercial entre os diversos agentes. Uma maior fiscalização da aplicação da Lei do Preço Fixo, combatendo os expedientes dos hipermercados e das grandes cadeias de livrarias para contornar a lei, tem sido uma exigência recorrente dos livreiros e editores independentes. Também seria necessária uma intervenção pública que protegesse as livrarias independentes da enorme pressão que se tem verificado nos últimos anos para o aumento do valor das rendas nos centros urbanos.

6 – Por fim, podes mostrar-nos uma fotografia de uma das estantes da tua livraria? Deixa-nos em pulgas para te ir visitar.

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Entrevista a João Barreiros – Crazy Equóides

Estivemos à conversa com o autor João Barreiros acerca do seu mais recente romance “Crazy Equóides“. Venham descobrir alguns dos segredos deste livro.

Crazy Equóides

O que tem o Crazy Equóides que mais nenhum livro em Portugal tem?

Nada que se assemelhe a Crazy Equóides parece ter existido na literatura lusa. Para já, trata-se de uma Space Opera retrofuturista. Não se refere a umbigos nem estados de alma. Não tem palavras ou frases bonitas. É anti romântica em toda a sua essência. É visceralmente violenta. Não trata do amor que redime, mas sim do amor que mata.
Mais do que tudo não existe neste derradeiro século, uma única obra genuinamente de FC nos sinistros meandros da literatura portuguesa.
Talvez seja por isso que ela é única na literatura lusa. Claro que a Academia e as almas sensíveis não vão querer pegar-lhe nem com a pontas dos dedos.
Talvez seja por isso que os Crazy Equóides vos possa interessar…

Quais foram as tuas principais inspirações para escrever este romance?

Inspiraram-me todas as aventuras pulp dos anos cinquenta, principalmente as Space Operas, onde as naves ainda podiam efectuar aterragens verticais.
E, claro, principalmente nos contos do Philip Jose Farmer.

Mack the Knife e Temps de La Cerises, as duas naves/inteligências artificiais têm nomes de canções, porquê?

Porque as canções revelam os fins a que as Companhias projectaram as naves
O nome Mack the Knife, por exemplo, foi retirado da Ópera dos três vinténs do Brecht. Mack é um chulo, e aproveita-se do espólio dos outros, apenas interessado nas opções mais negras da humanidade. A Companhia que Mack representa tem uma atitude quase necrófaga em relação aos restos que pretende alcançar.
Le Temps des cerises parece ser uma canção doce, mas surgiu na época mais negra da história de França, ou seja, durante o Terror. Também é a canção de fundo do Anime Porco Rosso. Se bem se lembram, o filme trata de um porquinho aviador que parece um homem ou de um homem que, por uma estranha maldição, se transformou num porco.
Love Kills, que também poderia ser o nome de uma nave, foi cantada na versão colorida e sonora do filme Metropolis, produzida por Moroder. Enquanto a canção passa, podemos ver o robô Maria a provocar crises de agressividade aguda entre os seus desatinados pretendentes. O filme completo encontra-se disponível no Youtube.
https://www.youtube.com/watch?v=TS5u_8Cs3AA

Se houvesse uma nave com o nome de uma canção portuguesa, qual seria?

Só poderia ser:  BABY SUICIDA, cantada pela Ia com a cara da Adelaide Ferreira.
https://www.youtube.com/watch?v=NsVEwz1-FLo
Neste caso a companhia lusitana teria de tentar resolver situações recusadas pelas outras Companhias, consideradas demasiado perigosas, ou absolutamente desnecessárias.

Depois de Crazy Equóides, o que recomendas ler a seguir?

Dogs of war de Adrian Tchaikovski
Lock in, Skalzi
Sysiphean, Torishima
Apex, Ramez Naan