Publicar um livro – Editora ou auto-edição?

Tens um manuscrito na gaveta? Um livro que sentes que está pronto para ser mostrado ao público em geral e não sabes que opções tens? Então este artigo é para ti.

O seguinte artigo corresponde à visão pessoal de Carlos Silva. Aceitam-se sugestões de correcção ou melhoria.
Como tudo, não existem regras absolutas e há sempre excepções. Este artigo pretende apontar linhas gerais e dar ferramentas para iniciantes neste mundo.

Existem duas grandes vias para publicares um livro: através de uma editora ou autopublicação. Cada uma com as suas vantagens e desvantagens, que já discutiremos a seguir.

Existem empresas que se fazem passar por editoras que imprimem livros a troco do autor pagar ou garantir um número mínimo de vendas. São as chamadas Editoras Vanity. Elas têm muitas formas e “esquemas” que lubridiam até pessoas bastante experientes no meio. Ao longo deste artigo vamos falar de algumas destas maroscas, mas para começar há uma primeira pergunta que permite separar muito trigo do joio:

Quem é a fonte de rendimento de quem publica?

  • Se forem os leitores – é uma editora.
  • Se forem os autores – é uma vanity.

Em resumo, para quem não quiser ler o artigo abaixo, as vantagens e desvantagens de publicar por uma editora ou auto-publicação.

Publicação por uma editoraAuto- publicação
O livro passa por um filtro de qualidade exterior.É o autor que decide se o livro tem qualidade para ser publicado ou não.
Não há qualquer custo para o autor.Todos os custos recaem sobre o autor
O autor recebe uma percentagem do valor das vendas (royalties), ou uma quantia fixa inicial, ou uma quantia fixa inicial mais royalties.O autor recebe a totalidade do valor da venda do livro.
A editora é responsável pela edição e revisão.O autor pode (ou não) contratar um serviço de edição/revisão.
A capa, acabamentos, paginação, estratégia de marketing são decididos pela editora (de preferência em diálogo com o autor).A capa, acabamentos, paginação, estratégia de marketing são decididos e feitos pelo autor (ou através de serviços que este contrate).
O livro está inserido num catálogo e numa estratégia editorial.O livro não está inserido num contexto editorial.
A promoção do livro é feita pela editora com a colaboração do autor, tendo um alcance potencialmente maior.Recai sobre o autor toda a promoção do livro, tendo um alcance limitado pela capacidade do autor.
As vendas, sua faturação, logística, etc… fica a cargo da editora.As vendas, sua faturação, logística, etc… recai sobre o autor.

1. Publicar por uma editora

As editoras atuam como “selo de conformidade”. Isto é: são um filtro entre os milhões de escritores do mundo (publicados ou não) e os leitores. Quando um leitor pega num livro publicado por uma editora confia que este tem um mínimo de qualidade e que se insere no contexto de um catálogo editorial com o qual o leitor se identifica.

É verdade que muitas editoras simplesmente vão à Feira de Frankfurt (ou equivalente) e compram os direitos dos livros que fizeram sucesso lá fora ou que vão ser adaptados a uma série da Netflix, mas até isso acaba por ser uma linha editorial.

Portanto, submeter um original a uma editora é tentar passar por esse filtro de qualidade. É importante para o autor, antes de enviar o que quer que seja, encontrar uma editora com que se identifique, cujo filtro de qualidade respeite e cuja a estratégia editorial/catálogo tenha algo a ver com o livro que vamos submeter (e.g. não vale a pena enviar um manuscrito a uma editora que só publica clássicos de autores mortos há mais de 70 anos). Uma pergunta que pode ajudar é: que editora publica os livros que gosto de ler dentro do género que escrevo?

Noutros países, como nos Estados Unidos, existe a figura do agente, que essencialmente é um representante do autor que irá apresentar o manuscrito a vários editores. Funciona como um pré-filtro, uma vez que em primeiro lugar os autores têm de convencer o agente a representá-los. O agente apenas ganha algo quando o livro é aceite para publicação através do dinheiro que o livro gera e os autores não têm que lhes pagar pelos serviços diretamente. Se algum dia um agente literário vos pedir dinheiro, fujam.

Voltando ao caso português padrão: depois de escolhida a editora está na hora de fazer a submissão do manuscrito.

  • Escrever uma carta de apresentação em que se apresenta o que se está a enviar.
    • Informações técnicas: título, número de palavras, se é um primeiro volume de vários…
    • De que trata a história, tanto o enredo como os principais temas.
    • Quem é o autor? Por favor, não incluam o cliché “Desde pequenino que gosta de contar histórias”. Quais os seus feitos literários (e.g. prémios) e extra literários?
  • Preparar o manuscrito
    • Ler, reler, corrigir possíveis erros ortográficos.
    • Se a editora tem normas de submissão, ler com atenção e seguir as instruções.
    • Se não, enviar o original do modo que melhor facilitar a leitura. Utilizar um tipo de letra padrão (enviar manuscritos em comic sans é um risco), um formato acessível (e.g. pdf abre em todos os PCs),

Há que saber lidar com a rejeição. Quando um editor informa que não quer publicar o nosso livro, nem sempre quer dizer que o original é mau. Por vezes quer dizer que não corresponde ao gosto do editor, ou não se enquadra na estratégia editorial. Ou então… quer mesmo dizer que o livro ainda não está pronto para ser publicado. São muitos famosos os casos como o da J. K. Rowlling cujos manuscritos foram rejeitados por diversos editores e depois se tornaram best sellers, mas há que ter a humildade de reconhecer que há muitos mais rejeitados que não tinham qualidade.

Claro que custa quando vemos livros bastantes piores que o nosso publicados… Lembrem-se escritores de todo o mundo: despeito é uma fonte de motivação plenamente válida para continuar a escrever.

Sendo o leitor o principal cliente de uma editora, é função desta extrair o máximo potencial do manuscrito submetido. Após este ser aceite para publicação segue-se o processo de edição, em que o editor, através da sua experiência e visão exterior da obra, aponta fraquezas e sugere melhorias. É um processo negocial que muitos autores têm dificuldade em aceitar e que se nota em demasiados livros que não aconteceu. Não confundir edição com revisão, que é a correção de erros ortográficos e sintáticos.

É também função da editora paginar, criar uma capa, materiais promocionais e uma estratégia de marketing, de preferência em diálogo com o escritor.

Por fim, a promoção do livro. Esta é feita pela editora, em colaboração com escritor. Aqui é fácil perceber que o alcance do escritor (amigos, família, fãs, círculos sociais em que se mova) pode ser aumentado através do alcance da editora (historial no mercado, leitores fiéis, canais de distribuição e promoção estabelecidos).

O alcance possível é uma das principais variáveis que influenciam o sucesso comercial de um livro (não confundir com qualidade literária). A existência de uma plataforma de possíveis compradores (que nem sempre coincide com os possíveis leitores) prévia à publicação do livro, por exemplo através das redes sociais, onde vais partilhando excertos do livro, ou por seres um dos concorrentes mais populares do reality show da moda, é algo que reduz imenso o risco associado ao investimento da editora.

Muitas vanities apresentam-se como editoras, anunciando que fazem todos estes serviços e que o autor não tem de se preocupar/pagar com nada, mas (e é os “mas” que nos devem meter alerta) o autor tem de garantir que é vendido um número mínimo de exemplares para a publicação acontecer. Esta condição pode surgir tanto na forma de uma quantidade de exemplares que o autor compra (“Não te preocupes, dizem eles, vai ser fácil vendê-los no dia do lançamento.”) ou na forma de pré-venda (“A publicação só vai para a frente se conseguirmos vender este número de exemplares.”). Se pensarmos, o que esta prática faz é retirar o risco do lado da editora, que deixa de ter de se esforçar para servir o melhor possível o leitor pois, antes sequer do livro sair, já pagou o trabalho que irá ter com ele.

2. Autopublicação

Primeiro de tudo, é preciso tirar o estigma: os livros autopublicados não são inerentemente maus.

É verdade que um autor pode ter uma ideia sobre-valorizada das suas próprias capacidades e atirar cá para fora uma obra que pertence ao ecoponto azul. No entanto, tal como acontece no mundo da música, a autopublicação tem o potencial de revelar obras que estão em contra-corrente com a cultura dominante, autores desconhecidos demasiado arriscados para as editoras, ou até obras com um público de nicho que não justificam o investimento de uma editora.

A auto-publicação pode ainda ser o caminho de quem quer fazer algo de menor ambição de alcance: editar um livro para oferecer a familiares e amigos no Natal; criar um livro com a história da Associação Cultural onde se faz voluntariado, para circulação interna; para vender como material de estudo no curso de macramé que se está a organizar.

Na auto-publicação o autor chama a si todas as responsabilidades envolvidas na produção de um livro: escrita, edição, revisão, paginação, capa, registos legais (ISBN, depósito legal…), impressão (se não for um ebook), escolha do preço, distribuição, faturação, promoção…

O autor pode assumir uma postura auto-didata e fazer todas estas tarefas ou sub-contratar algumas ou todas elas a várias ou a uma empresa. A liberdade é total! Muitos autores consideram que tudo isto lhes rouba muito tempo e que podiam estar a escrever em vez de pedir orçamentos a gráficas; outros consideram que o trabalho vale a pena pelo controlo total sobre o processo; outros ainda pagam a uma empresa de serviços editoriais para não terem de pensar nisso.

No caso da sub-contratação é essencial encontrar bons prestadores de serviços e consultar o máximo de opiniões externas honestas possíveis. Todos nós temos os nossos ângulos mortos e aquela capa que achamos fantástica porque mostra exactamente as imagens mentais que tivémos ao escrever o livro pode ser extremamente pastiche para a generalidade dos possíveis leitores.

Uma palavra de atenção: os prestadores de serviços editoriais não são editoras. Alguns adoptam comportamentos e práticas a simular as de editoras, o que acaba por os colocar mais próximos das vanity. Outras práticas tal como colocar o seu logotipo na capa dos livros, ter publicidade aos seus serviços ou apresentarem-se como editores no evento de lançamento não favorecem o autor, que acaba por fazer publicidade à empresa de serviços através do livro que ele está a pagar para produzir. É um pouco como contratar alguém para pintar a casa e acabar com um “Manuel & Filhos Pinturas Lda.” escrito na parede por cima do sofá.

Prestadores de serviços que acumulem muitas valências são bastante práticos para os autores, uma vez que permitem que num só contrato cubram toda a cadeia de valor de um livro. Porém é preciso não descurar possíveis conflictos de interesse (e falta de profissionalismo): um prestador que faça impressão e distribuição de livros pode pressionar que mais exemplares sejam impressos para distribuição; um prestador que seja impressor de livros e paginador/capista pode pressionar que se escolham acabamentos mais caros; um prestador que faça edição e revisão paga à palavra talvez pense duas vezes antes de sugerir cortar substancialmente o comprimento do texto… Isto são tudo exemplos hipotéticos, alguns até pouco verosímeis, mas que poderão ajudar os autores a estarem atentos.

Antes de começares todo o processo lista todas as despesas que vais ter (pede vários orçamentos para teres uma base de comparação), calcula quantos livros e a que preço terás de os vender para recuperar o dinheiro investido (isto claro, se for uma preocupação) e estabelece um cenário de vendas pessimista e um realista. Define se as tuas finanças pessoais podem comportar o cenário pessimista. Há uma grande componente emocional em publicarmos uma obra nossa e, dependendo da personalidade de cada um, que tanto pode encorajar como desencorajar em seguir em frente. De novo, procura aconselhar-te com pessoas em quem confies.

Nesta fase muitos autores ficam surpreendidos com o peso relativamente pequeno da impressão do livro em si em relação ao PVP (preço de venda ao público). Faremos em breve um artigo sobre isso. No entanto, é preciso ter em conta que nem todos os livros têm de ser impressos. Serviços como os da Smashwords e a Amazon Kindle Direct Publishing permitem fazer ebooks com relativa facilidade.

Outra hipótese é, depois de se ter estabelecido o orçamento e cenários de vendas, optar por uma campanha de Financiamento Colectivo (crowdfunding). Nas campanhas de crowdfunding é estabelecido um valor objectivo (neste caso o custo de publicação do teu livro) e é pedido à comunidade que dê doações em troca de recompensas. Caso o valor objetivo seja atingido durante a duração da campanha, o livro é publicado, caso não seja, o dinheiro é devolvido aos apoiantes.

É muito normal campanhas de financiamento colectivo terem como recompensa exemplares do livro a publicar, funcionando na prática como uma pré-venda.

A PPL é a mais expressiva plataforma de crowdfunding em Portugal; Catarse e Kickante se estivermos a falar do Brasil; e o incontornável Kickstarter dos Estados Unidos da América, que é hoje em dia quase um sinónimo de “fazer uma vaquinha”.

Em suma

Há vários caminhos possíveis, mas também muitas armadilhas pelo caminho. A informação, como neste e outros artigos poderão ajudar os autores a afastarem-se de atividades menos éticas e escolherem uma boa estratégia para dar a sua obra a conhecer ao mundo.

E também há que ressalvar que não é por um autor começar com auto-edição que não possa mais tarde publicar através de uma editora, ou vice-versa. Basta para isso ter em conta o exemplo do Brandon Sanderson, famoso autor publicado nas maiores editoras de vários países, que fez uma campanha de angariação de fundos para a auto-publicação de uma série de livros que arrecadou 15,4 milhões de dólares em apenas 24h.

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